sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

OU NÃO

Essa noite eu acordei de um sonho onde estava em uma bela e grande casa , enquanto andava escutando o rangido dos tacos percebi que essa casa era na verdade minha vida.

Espero que ela seja perfeita, ou não. Seja perfeita, ou não.

Vi que os lugares que eu mais gostava eram onde eu menos ficava, esses lugares também eram os que mais precisavam de reparos ou reformas.

Sei que vou mudar isso, ou não. Eu vou mudar, ou não.

Fui na janela dos quartos dos fundos e vi muita coisa no quintal, pessoas que já se foram e deixaram muita saudade estavam lá, velhas sismas da infância e amigos da escola.

Ah! Como o passado era bom, ou não. O passado era bom, ou não.

Num canto mais ao lado estava um velho amigo declamando os diálogos de seu livro em forma de blues enquanto tocava um violão com o corpo coberto por adesivos de Che, ou seria de Raul?

Acho que era te Che, ou não. Era de Che ou não.

Bem no centro estava meu pai comendo aquele churrasco gorduroso que já não pode mais e com ele meu tio-herói me virando de cabeça pra baixo segurando somente em um de meus pés.

Faz de novo Tio, ou não. De novo, ou não.

Meu irmão pegou a chave do del rey azul de meu pai e saiu pra caçar, enquanto isso minha mãe o dizia:
Cuidado meu filho, não vá se arriscar.

Tenha cuidado mano, ou não. Cuidado! Ou não

Mas era tudo como se não existisse mais, e não é que não existe mesmo. Pois o que realmente vivo hoje, estava lá dentro, e foi bom perceber que dentro de “casa” eu sou feliz.

Em meu lar estava tudo sob controle, ou não. Tudo sob controle, ou não.

Após tanta nostalgia na janela dos fundos passeei pela casa dando uma boa olhada em minha vida e percebi que cada um daqueles que estavam lá nos “fundos”, deixou alguma lembrança que agora adorna minhas estantes, mesas e paredes.

Todos ainda estão comigo, ou não. Comigo, ou não.

Minha esposa estava estava linda com a luz azul da tela do computador refletida em seu rosto enquanto ela me mandava beijinhos despojados típicos de um casal que é feliz.

Me dê mil beijos, ou não. Mil beijos, ou não.

Meus filhos pulando em minhas gostas brincavam e falavam palavras que só os pais entendem, trocando letras, gritando e dando sorrisos contagiantes.

Fiquem sempre juntos do papai, ou não. Juntos do papai, ou não.

Foi ai que eu pensei algo e sai corrento para a sacada da casa, olhei esperançoso para frente e tentei enxergar o que estava lá, mas não foi possível.

Mas sei que só tem coisa boa lá, ou não. Coisa boa, ou não.

Tudo estava encoberto por uma serração suave e branca como a inocência de meus filhos, me esforcei, espremi os olhos mas nada pude ver. O que será que esta lá me aguardando quando eu caminhar em frente?

Vou caminhar e ver, ou não. Irei ver, ou não.

Eu não sei, mas posso ter certeza que tudo que tenho hoje também adornará minha casa um dia como lembranças de um presente que passou, e quando eu olhar para elas não ficarei triste.

Terei um quadro com essa letra, ou não. Com essa letra, ou não.

Me encherei de esperança e saberei que fiz o melhor que pude, vivi o máximo que tive capacidade e se eu não fiz algo, meus filhos podem fazer por mim.

Façam por mim meus filhos, ou não. Façam ou não.